Teledramaturgia - A Vida da Gente

Enredo apaixonante, sensível, com personagens profundos e verdadeiros e um pano-de-fundo mais que atual: as novas relações familiares.

Olhos na realidade e pés fora do chão - Um perfil do poeta Nelson Capucho

“A poesia parece uma inclinação. Todas as pessoas que eu conheço que escrevem poesia têm uma sensibilidade. Parece que o cara nasce poeta”, diz ele.

Poesia concreta - Intervenções urbanas

Muros, faixas de pedestre, pontes, edifícios, construções... Tudo se torna tela.

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domingo, 20 de novembro de 2011

"Aqueles dois" - Um conto de mediocridade e repressão

O conto “Aqueles Dois”, contido em Morangos Mofados (1982), narra o envolvimento de dois homens: Saul e Raul, ironicamente – ou não – se invertidos, os nomes de ambos significam luas e luar. Ambos passaram em um concurso público e depois disso tinham suas mesas lado a lado em uma repartição pública, que pode ser vista como metáfora para qualquer lugar de pesado ar burocrata e extrema repressão.  Repressão inclusive mencionada já no subtítulo do conto: “História de aparente mediocridade e repressão” (ABREU, 2005, p. 132). Depois de certo tempo a relação próxima de Raul e Saul – vez em quando beirando os aspectos da intimidade, vez em quando mergulhando neles - começa a despertar incômodo nos funcionários da repartição, que enxergam os dois de maneira medíocre, limitada e repressora. Em ultima res isso acaba gerando a demissão dos dois.

Logo no início da narrativa é dito “que a repartição era como ‘um deserto de almas’.” (ABREU, 2005, p. 132). E a seguir é concluído: “Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. (1982, p. 132). Assim começa a proximidade entre os dois personagens centrais do conto. Os dois se reconheceram de imediato, quase como se estivessem predestinados, mas isso não possui um sentido amoroso-sexual, no entanto, tem características do amor romântico:

“Desde suas primeiras origens, o amor romântico suscita a questão da intimidade. Ela é incompatível com a luxúria, não tanto porque o ser amado é idealizado – embora esta seja parte da história -, mas porque presume uma comunicação psíquica, um encontro de almas [grifo meu] que tem um caráter reparador. O outro, seja quem for, preenche um vazio   que o indivíduo sequer necessariamente reconhece – até que a relação de amor seja iniciada. E este vazio tem diretamente a ver com a auto-identidade: em certo sentido, o indivíduo fragmentado torna-se inteiro.” (GIDDENS, 1993, p. 56)

Desse modo, a identificação imediata dos dois acaba criando uma atmosfera de encantamento, dessa comunicação interior e psíquica, do encontro de almas especiais dentro de um deserto de almas – também desertas. Raul e Saul, as luas dentro do luar, o luar dentro das luas, estão aí por um motivo que não se conhece, mas que é reparador. Os dois se preenchem mutuamente, primeiro com conversas pífias e assim por diante mergulhando cada vez mais dentro de uma relação íntima. O vazio que ambos sentiam, um vazio urbano, típico: “naquela  cidade todos vinham do Norte, do Sul, do Centro, do Leste” (ABREU, 2005, p. 133). Cabe ressaltar que dentro do conto não existe a concretização dessa relação.

Em relação ao sentimento de Raul e Saul quanto ao espaço, o espaço púbico em que estão inseridos em primeiro momento não lhes possibilita a entrada no campo subjetivo da intimidade, o que resume a relação dos dois a vários cafés, cigarros e algumas discussões sobre gostos em comum. Os sentimentos íntimos vêm à tona apenas quando os dois estão na pensão. O narrador explicita que logo no primeiro encontro fora do ambiente público conversou-se sobre o “deserto de almas”, como se o utópico passasse a ser pelo menos um pouco tocável. “Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. Nesse dia as moças não falaram com eles.” (ABREU, 2005, p. 137). Como é visto nesse último trecho, o espaço público tolhe a relação dos dois, coisa que não acontece no espaço privado, que dá a abertura suficiente para conversas mais profundas e demonstrações de afeto. Mas por que algo que existe apenas no âmbito privado é tão levado em conta pelos trabalhadores da repartição? A possível relação homossexual de Raul e Saul nada tem a ver com os companheiros de trabalho. Giddens disserta sobre essa transmutação que existe entre a sexualidade, que é privada, para o que é público:
“Sexualidade: tema que poderia parecer uma irrelevância pública – questão absorvente, mas essencialmente privada. Poderia ser também considerada um fator permanente, pois se trata de um componente biológico e como tal necessária à continuidade das espécies. Mas, na verdade, o sexo hoje em dia aparece continuamente no domínio público (...).” (GIDDENS, 1993, p.9)

O fato dos dois não se enquadrarem no estereótipo do machão, visto que eram homens “normais”, mas que no entanto apreciavam o cinema, arte (Saul tinha um quadro com uma pintura de Van Gogh e um livro de reproduções do mesmo), além de terem notavelmente uma maior sensibilidade para perceber as coisas,  fez com que fossem vítimas de um olhar inquisidor. Não que fossem intelectuais, mas na realidade da repartição pública, onde a maioria das pessoas beirava a superficialidade – não só cultural – eles eram equiparados a estes. Parafraseando Adorno, os intelectuais acabam quase sempre remetendo a tipos efeminados (1993).

No conto, não há nenhuma amostra concreta de que os dois teriam algo além de carinho um pelo outro. Porém, há indícios de que o sentimento ultrapassava a amizade no decorrer da diegese:

“Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.” (ABREU, 2005, 138-139)

Apesar da leitura de que ambos sentiam algo carnal um pelo outro ser possível, a questão da concretização ou não dessa relação “amorosa” não é o foco do conto. O conto pretende cutucar, incitar. Mostrar um comportamento medíocre e opressor. Mas não apenas nisso. É um conto de identificação e afetividade que independem de/do sexo. Um conto de amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois. Um amor que grita dentro desse quadro pós-moderno em que ninguém mal se encosta. Somos colocados no lugar de Raul, de Saul, das pessoas da repartição. Será que teríamos os olhado com o mesmo olhar inquisidor? Raul e Saul têm um aprofundamento psicológico muito complexo e cuidadoso feito por esse narrador que é heterodiegético e faz focalização onisciente, interna e externa e interventiva.

O conto acaba com os dois entrando em um táxi, juntos, depois de serem mandados embora: “Pálidos, os dois ouviram expressões como ‘relação anormal’, ‘desavergonhada aberração’, ‘comportamento doentio’, ‘psicologia deformada’ (...)” (ABREU, 2005, p.140). O desfecho do conto dá-se então exatamente pelos contrapontos existentes entre a linha tênue existente na relação deles dentro e fora da repartição pública, relação esta que nem deveria ser levada em conta dentro do espaço público, mas que acabou culminando na demissão dos dois e no desfecho da narrativa:

“Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.” (ABREU, 2005, p. 140)



(por Layse Moraes)

sábado, 19 de novembro de 2011

A influência da mídia no imaginário infantil


Em certo sentido, a vida é transição. O ser humano passa por ciclos, anuais, mensais ou mesmo diários. Vivenciam-se os grandes ciclos da infância, da adolescência, da idade adulta, da maturidade e da velhice, além das transições culturais e evolutivas. Novas formas de olhar, de sentir, de receber e de doar, porque a transição é um fato constante da vida.

Nunca se espera pela próxima grande mudança, porque sempre se vivencia o processo. Pode-se até negar que o mundo esteja mudando, ou que o homem esteja. Mas o renovado exame da natureza das coisas diz não ser o homem entidade invariável que se move no curso da vida: o homem é um processo de mutação, como também, o seu imaginário.

O imaginário do homem é formado a partir de suas lembranças e percepções do mundo externo, em relação ao interno. As sociedades partilham de conteúdos dos pensamentos que são, no primeiro momento, interiorizados nos indivíduos e, então, compartilhados no âmbito social. O imaginário social é formado por sistemas de símbolos que são processados e admitidos como referenciais na maneira de ver o mundo externo, através das vivências, objetivos e metas individuais.

E o imaginário infantil? O que dizer?           


Antes é preciso que se defina o que é imaginação, o que é imaginário. De acordo com o dicionário Aurélio (on-line), imaginário, do latim, “imaginariu” consta como: “que só existe na imaginação; ilusório; fantástico. Aquilo que é obra da imaginação. O conjunto de símbolos e atributos de um povo, ou de determinado grupo social.[1] 

Por fim, pode-se dizer que o imaginário é parte inseparável do homem. Presente em todas as civilizações, em todas as atividades humanas. E, sendo o produto da imaginação, o homem nada mais é do que um ser simbólico. 

O imaginário não é um objeto. Ele é precisamente aquilo que em cada homem, não pode ser tratado como objeto. E, é nessa visão comunitária que estão as raízes de uma concepção autenticamente humanista do imaginário.

Aprofundar essa concepção, refletir sobre os seus fundamentos, debater aspectos essenciais e básicos de sua formação, constitui uma tarefa de maior significação para compreender-se o imaginário infantil.
Daí porque, ter-se como objeto deste estudo, a pesquisa sobre a formação do imaginário infantil – como está construído, quando a criança é mais suscetível às idéias e às imagens?

Além do que, busca-se também compreender e analisar a influência da mídia na formação de um imaginário social voltado para o lado racional do homem. Sabe-se que o sistema de crenças, oriundo da ênfase dada ao pensamento cientifico mecanicista, trouxe como consequência a exclusão de valores referentes à humanização e à socialização.

E, o que dizer do imaginário infantil?
Como salienta Adelaide Consoni: a criança é como um visitante recém chegado de um universo desconhecido

[...] é introduzida de maneira forte e sem cerimônias ao nosso mundo de imagens multifacetadas, existências diversas e fantasias surreais. Aos poucos ela vai abrindo os olhos para este novo estado de coisas que vão aparecendo na tela de sua vida, compondo um cenário fantástico e incompreensível, moldando um sem fim de fantasias que aos poucos vão se firmando em sua mente, e moldando o seu novo universo pelo qual ela irá participar como atora e autora até a sua maior transformação como ser natural.[2]

E, por fim, concluir que é preciso mudar, transformar a mensagem que se transmite cotidianamente, carregada, muitas vezes, apenas de pessimismo. O imaginário infantil é dialético, não se prende a um dado definitivo. Por isso, não se reduz a uma natureza substancial, a um esquema fixo e rígido de ser. A criança se expõe, ela afronta, existe projetando-se fora de si, face ao real e ao imaginário. Mas, ao mesmo tempo, ela se retoma, concentra-se sobre sua própria interioridade, é afirmação e negação sucessivas de si mesma.

A análise e a interpretação dos autores mostram que se faz necessário uma profunda mudança nas mensagens ideológicas transmitidas pela mídia. Acredita-se que há atualmente, uma necessidade maior de integração entre  ciências,  artes e  humanidades, como a saída viável para o futuro das crianças.

O homem encontra-se na era da revolução científica, que só pode ser comparada ao nascimento da ciência clássica racional do século XVII. Nesta nova era revolucionária têm-se os físicos mais ousados que falam abertamente sobre a mudança de paradigma, sobre o conhecimento integrado, usando o primado da consciência. Se na revolução científica do século XVII teve-se o primado da matéria, desta vez tem-se o primado da consciência.

Uma solução para a construção de uma sociedade saudável, que respeite a complexidade da era moderna e, ao mesmo tempo, a individualidade infantil é o que Prout enfatiza: “[...] criança não precisa ser considerada uma espécie distinta, mas sim, uma ordem da rede. Rede seria uma coleção de ordens sociais diferentes que podem competir ou conflitar, mas principalmente são sobrepostas umas as outras e devem ser pensadas no contexto geral”.[3]

O que se tem que observar não é até onde os meios de comunicação atingem, mas sim o seu conteúdo moral. Os sistemas que se conhece não encorajam a prevenção dos problemas humanos e, sim, a intervenção. Isso resulta em paradigmas maléficos para a própria sociedade. Todos os problemas são fragmentos de uma só crise, que é a crise da percepção. Precisa-se hoje de uma nova percepção do mundo.


As conexões formam a matéria, como formam a música, como formam o ser humano.  Precisa-se entender que a maneira de ver o mundo, de se relacionar, de se conectar com o externo determina nossa vida. E, crianças são seres em desenvolvimento, por isso a importância de uma educação fundamentada em valores, e especialmente em valores do bem.

A criatividade é um processo básico dessa evolução. E, estimulá-la através de atividades que buscam o melhor do homem é uma atitude consciente. Precisa-se de uma sociedade que se preocupa com o caráter moral dos homens que virão habitar sua casa no futuro. Precisa-se pensar em nossas próximas gerações.
Mudar o sistema de valores inclui uma economia mais sustentável, que beneficie a todos da mesma maneira. Mudar os valores implica em muita coisa, em pagar bem para uma professora, que forma a moral das crianças, investir na educação, na saúde e na segurança, de maneira igualitária.

Esses valores têm de estar refletidos na noticia que é dada  continuamente, formando um imaginário social mais saudável e consciente.



[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio (Dicionário eletrônico). Versão 5.0. Positivo Informática, 2004.
[2] CONSONI, Adelaide.  A influência da mídia no imaginário infantil.  Disponível em: <sites.uol.com.br/paulo-v/textos/img9.htm>. Acesso em: 12 nov. 2011.
[3] PROUT, Alan. Reconsiderar a Nova Sociologia da Infância. Braga: Universidade do Ninho. Instituto de Estudos da Criança, 2004. (texto digitado)